PERSPECTIVA TEOLÓGICA

Quanto aos casos de suicídios de religiosos analisados por Durkheim em sua obra clássica O Suicídio, que aponta uma taxa acentuada de suicídio entre indivíduos de tradição protestante, sendo essa taxa menor entre católicos, e mais baixa ainda no judaísmo, cabe ressaltar que o autor trabalha na perspectiva sociológica, apenas identificando mecanismos presentes nas diferentes confissões que, segundo ele, podem ou não inibir a prática do suicídio. Segundo ele, as taxas mais elevadas entre protestantes se explicam pelo fato de que o protestantismo é menos fortemente integrado do que o catolicismo. O mesmo ocorre em relação ao judaísmo. As perseguições criaram entre os judeus sentimento de solidariedade mútua e vínculos muito fortes: “A Igreja judaica acabou se tornando mais intensamente concentrada do que qualquer outra, relegada a si mesma pela intolerância de que era objeto” (DURKHEIM, Émile. O Suicídio. Trad.: Mônica Stahel. S. Paulo, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 2000, p. 185).

Condições desfavoráveis acabam tornando o grupo mais coeso, possibilitando maior vigilância e controle dos membros, o que acaba elevando o padrão moral. Além disso, o judaísmo “consiste essencialmente num corpo de práticas que regulamentam minuciosamente todos os detalhes da existência e deixam muito pouco espaço para o julgamento individual” (Idem, p. 189).

Quanto à diferença entre o catolicismo e o protestantismo como fator determinante para a discrepância dos números de suicídios entre as duas correntes religiosas, Durkheim afirma que se deve ao fato de que o católico recebe a sua fé pronta e está submetido a um rígido sistema hierárquico. Em virtude desses fatores, a religião católica acaba exercendo certo controle sobre as consciências e tal controle inibe. Já o fiel protestante é estimulado à reflexão pautada pelo livre exame das Escrituras, o que o torna mais autor de sua crença e, consequentemente, mais livre. Além disso, ele não está submetido a um sistema hierárquico tão rígido; esses fatores favorecem o individualismo e a tomada de decisões. Essas diferenças entre as duas correntes religiosas explicam também a razão de a Igreja Católica permanecer como uma unidade indivisível, enquanto o protestantismo se mostra tão fragmentário.

Durkheim chama a atenção para o fato de que, entre os grandes países protestantes, a Inglaterra é aquele em que o suicídio é menos desenvolvido: 80 suicídios por milhão de habitantes, ao passo que as sociedades reformadas da Alemanha têm 140 a 400. Segundo ele, essa diferença tão acentuada se deve ao fato de que, na Inglaterra, se preserva um forte respeito às tradições, inclusive com a religião controlando vários aspectos da vida civil. Ele conclui: “Enfim, de todos os cleros protestantes, o anglicano é o único hierarquizado. Essa organização exterior traduz evidentemente uma unidade interna que não é compatível com um individualismo religioso muito pronunciado. (…) Assim, o caso da Inglaterra, longe de infirmar nossa teoria, vê confirmá-la. Se lá o protestantismo não produz os mesmos efeitos que no continente, é porque a sociedade religiosa é muito mais solidamente constituída e, nesse sentido, aproxima-se da Igreja católica” (Ibidem, p. 190-191).

Se, de fato, Durkheim está certo em suas conclusões, talvez tenhamos aqui uma pista que nos ajude a compreender as razões para a elevação do número de suicídios hoje no mundo. Vivemos uma época caracterizada pela crescente resistência a todo tipo de hierarquia. A autonomia é uma das marcas predominantes do homem pós-moderno. Não é difícil perceber a estreita relação entre individualismo, autonomia, egocentrismo e, consequentemente, vazio. A vida autocentrada não produz realização e felicidade, mas fastio, frustração e decepção. Certamente, isso produz um impacto existencial.

Na perspectiva teológica, o suicídio é uma confirmação do estado de miséria a que o pecado condenou o homem, sendo uma afronta ao Senhor da vida. Por isso, o remédio contra esse mal não virá da evolução cultural dos povos; nem dos argumentos filosóficos; nem das explicações sociológicas e dos rearranjos sociais; e tampouco dos diagnósticos médicos-psicológicos seguidos de ações terapêuticas e/ou prescrições medicamentosas. Essas disciplinas, com os seus recursos, podem até dar importantes contribuições para a compreensão do fenômeno e o seu enfrentamento. Contudo, o remédio infalível e eficaz é a graça de Deus em Cristo Jesus, que sara o coração do homem e refaz nele a harmonia consigo, com o meio e com Deus.

A literatura bíblica sapiencial declara que “o temor do Senhor é fonte de vida para evitar os laços da morte” (Pv 14.27).

Pr. Eneziel P. de Andrade
eneziel@hotmail.com

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