Leia II Coríntios 8.1 a 15

A propósito desta semana especial – a Semana da Pátria –, torna-se oportuno falar a respeito de uma fé mais comprometida com os desafios nacionais, uma fé impregnada de civismo. Com isso, refiro-me não propriamente ao ufanismo patriótico que envolve a paixão pelas cores e símbolos da Pátria, mas o serviço comunitário que visa à promoção da cidadania, especialmente entre os menos favorecidos.

Na sociedade atual, observa-se que as pessoas são acentuadamente individualistas e egoístas. Cada um deseja levar vantagem e satisfazer os seus próprios interesses. Tudo gira em torno de lucro e vantagens pessoais. Entretanto, é notável constatar que, nessa sociedade em que tudo se faz por dinheiro, em que a arte da política transformou-se em caminho para os espertalhões que visam apenas interesses pessoais, muitas pessoas estejam vivendo a gratificante experiência de trabalhar voluntariamente, movidas apenas pelo desejo de serem úteis a outras pessoas. Louvado seja Deus, porque, em nossa Igreja, há muitos que têm se doado dessa maneira.

A prestação de serviços voluntários à comunidade, nas mais diferentes áreas, é uma prática que tende a crescer; e nós, como cristãos, não podemos ficar alheios a isso. Em nossas igrejas há muitas pessoas, principalmente aposentados, que muito têm a oferecer, podendo colocar a serviço da comunidade seus talentos e experiência.

O evangelho que professamos e pregamos nos impulsiona a uma vida solidária e participativa. Devemos evangelizar, mas, também servir à comunidade da qual fazemos parte. A felicidade está em viver solidariamente, doando-se e buscando a felicidade dos outros. Os cristãos macedônios se mostraram extremamente solidários: “porque, no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade. Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários” (vv.2,3).

Conforme definição da ONU, “voluntário é toda pessoa que, devido ao seu interesse pessoal, dedica parte de seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem-estar social ou em outros campos”, como por exemplo: saúde, assistência social (crianças, idosos, populações carentes e portadores de necessidades especiais), educaçãoecologiacultura e artes, cidadania (educação comunitária, defesa de direitos, combate à criminalidade, segurança, etc.). O presidente FHC sancionou em 18/02/1998, a Lei no 9.608, que dispõe sobre o serviço voluntário.

O trabalho voluntário tem uma base essencialmente bíblica, como veremos, sobretudo, no ensino e na prática de Jesus. Vejamos:

  1. O serviço voluntário é motivado pela identificação com as necessidades à volta

O texto lido fala da campanha promovida por Paulo, entre as igrejas da Macedônia, para socorrer os cristãos pobres de Jerusalém, que estavam passando por grandes necessidades. Ao serem informados da precária situação dos irmãos de Jerusalém, os macedônios pediram a Paulo, “com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos” (v.4). Eles se identificaram com o problema.

A disposição para o voluntariado nasce quando somos despertados para as necessidades existentes à nossa volta, identificando-nos com elas. Enquanto não enxergarmos os problemas, ou fingirmos que eles não existem, não teremos disposição para participar da assistência aos necessitados.

Também, enquanto não compreendermos que a precariedade que envolve a tantas pessoas, nem sempre é culpa delas, mas de políticas injustas que perpetuam a desigualdade, não teremos motivação para agir; pelo contrário, permaneceremos escudados atrás de argumentos, nem sempre éticos ou cristãos, usados para tentar justificar nossa omissão.

As necessidades da comunidade em que vivemos precisam ser identificadas. O interesse pelos problemas e necessidades da comunidade é o ponto de partida para o serviço voluntário.

  1. O serviço voluntário deve ser visto como um privilégio

Falando aos presbíteros de Éfeso, o apóstolo Paulo declarou: “Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber” (At 20.35).

Poder atuar como voluntário para ajudar a comunidade é um privilégio, uma graça, como observa Paulo nos versículos 3 e 4: “na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos”.

As pessoas que exercem o voluntariado junto a suas comunidades são pessoas desprendidas e felizes; sentem-se agraciadas e gratificadas pelo privilégio de poder servir. Colocar a serviço da comunidade, de forma voluntária, os nossos dons e capacidades e, em alguns casos, até mesmo recursos materiais, é um privilégio que deve ser valorizado, uma graça a ser buscada.

  1. O serviço voluntário se traduz em ações concretas

As pessoas envolvidas com o voluntariado são pessoas que fazem. Há muitos que só falam, mas não movem uma palha. Nos anos de eleição é comum aparecer pessoas que nunca se envolvem em nenhum trabalho em favor da comunidade, mas buscam nossos votos para nos representar. Gente assim não pode ser levada à sério.

Em II Coríntios 8.11, Paulo afirma: “Completai, agora, a obra começada, para que, assim como revelastes prontidão no querer, assim a leveis a termo, segundo as vossas posses”. Cada um pode oferecer, segundo sua capacidade e possibilidade, algum tipo de trabalho voluntário na comunidade. Instituições filantrópicas, associações, comissões e conselhos municipais, escolas, hospitais, creches, asilos, e principalmente as igrejas, sempre têm como absorver o trabalho voluntário de pessoas que realmente querem ser úteis à sua comunidade.

Através do voluntariado, os cristãos têm uma grande oportunidade para dar o seu testemunho (Mt 5.16).

  1. O serviço voluntário deve ser uma expressão da nossa consagração a Deus

Para o cristão, o desafio ao voluntariado deve ter um peso ainda maior, pois, segundo Paulo, fomos “criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.10). Todo o trabalho que realizamos deve ser uma expressão da nossa consagração a Deus. É significativa a observação feita por Paulo em relação aos macedônios: “deram-se a si mesmos primeiro ao Senhor, depois a nós, pela vontade de Deus” (v.5).

Pessoas verdadeiramente consagradas a Deus têm prazer em servir ao próximo, abraçando causas nobres e doando-se. O exemplo de Cristo, apresentado por Paulo em Filipenses 2.5-11, deve nos inspirar a uma vida de serviço, pois, ele “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo”.

Do verdadeiro cristão, espera-se o amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo, como a si mesmo (Mt 22.37-39).

 

Pr. ENEZIEL P. ANDRADE
eneziel@hotmail.com

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