Leia Lucas 17.20 a 37

De maneira bastante simples, pode-se dizer que o reino de Deus é o mundo como Deus quer que ele seja. No texto de Lucas 17.20 a 37, em resposta à indagação de um fariseu, Jesus discorre a respeito da vinda do reino. Nos vv. 20 e 21, ele fala sobre a presença do reino como algo interior: “está dentro de vós”. Outras traduções possíveis são: “entre vós outros” ou “ao vosso alcance”. Nos vv. 22, 24 e 25 há referências ao “dia do Filho do Homem”, isto é, o dia do retorno de Cristo e a consumação do reino, evento precedido e iniciado com os sofrimentos de Cristo. Nos vv. 26 e 27 são apresentados dois exemplos históricos e clássicos a respeito do juízo impetrado por Deus.  São ilustrações grande juízo que marcará o estabelecimento definitivo e final do reino. Ante à iminência desse dia, os discípulos são alertados quanto ao perigo da acomodação ao estilo de vida da sociedade não cristã. Nos vv. 34 a 36, há referências informando que, quando da vinda do Senhor, um será tomado e outro deixado. A ênfase aqui é apenas ao fato de que uns escaparão do juízo e da condenação, enquanto outros serão salvos. Essa interpretação vincula-se ao v. 37, que é, na verdade, um provérbio utilizado por Jesus para descrever o cenário do julgamento vindouro.

O versículo paralelo a este, no Evangelho segundo Mateus (Mt 24.28), é comentado da seguinte maneira na Bíblia de Estudo Almeida: “Expressão proverbial; aqui, pode sugerir que o regresso do Filho do Homem será acompanhado de sinais evidentes para todos, assim como a presença de um cadáver no deserto se dá a conhecer pelas aves de rapina que se reúnem”.

O objetivo da presente reflexão é auxiliar na compreensão de importantes aspectos que envolvem o reino, no que se refere à sua natureza, manifestação e consumação. Vejamos então:

  1. O aspecto espiritual do Reino

Nos dias de Jesus, a ideia que as pessoas, em geral e os próprios discípulos, tinham a respeito do reino de Deus era acentuadamente terrena, política e militarista. Todos ansiavam por ver os sinais concretos da inauguração do reino messiânico anunciado pelos profetas veterotestamentários, por João Batista e pelo próprio Senhor Jesus. Pensava-se que a concretização de tais pregações consistiria na restauração do reino de Davi, na derrota dos romanos e num domínio político de Israel sobre os outros povos (Mc 10.11; Lc 24.21; At 1.6).

Possivelmente, foi com essa convicção e com sinceridade, que o fariseu interrogou a Jesus quanto à vinda do reino. A resposta do Mestre é objetiva. Ele esclarece que a vinda do reino não será com visível aparência ou ostentação (v.20); e nem geograficamente localizada – aqui ou lá – (v.21), pois, na verdade, “o reino de Deus está dentro em vós”.

Gottfried Brakemeier, observa que a terminologia indicativa de que o reino vem “é significativa, pois mostra que o reino irrompe no mundo ‘de fora” (Reino de Deus e Esperança Apocalíptica, Sinodal, 1984, p. 35).

O reino é, antes de tudo, uma realidade espiritual e interior; nasce interiormente, a partir do momento em que o Espírito Santo atua no coração do indivíduo, levando-o ao encontro com Cristo, à assimilação dos valores do evangelho e à encarnação de sua mensagem. Com certeza, o grande sinal da presença do reino é a transformação de vidas operada pelo Espírito Santo mediante o evangelho. É precisamente isso que Jesus quer dizer quando afirma que “o reino de Deus está dentro em vós” (v.21).

  1. O aspecto histórico do Reino

É importante observar que o reino não é um conceito abstrato, de caráter apenas espiritual e pessoal. Os sinais da presença do reino se manifestam historicamente. Essa manifestação se dá através da obediência ao evangelho, a nova vida em Cristo. Os sinais da vinda do reino são inequívocos, de acordo com os relatos dos evangelhos (Mt 11.2-6; 12.28; Lc 11.20).

A derrota de Satanás, o suprimento das necessidades básicas do ser humano, o perdão dos pecados e a libertação de todas as formas de legalismo e opressão, são eventos que sinalizam que o reino de Deus é chegado.

A presença do reino de Deus no mundo se manifesta também através de movimentos e estruturas sociais, políticas e econômicas comprometidos com a justiça, com a causa dos fracos, com a vida. Deve ficar claro, porém, que “toda realização do reino nas estruturas da sociedade é fragmentária, tem caráter de semente. A plenitude do reino ultrapassa tudo o que humanamente é possível. É Deus quem há de trazê-la” (G. Brakemeier, op. cit., p. 16).

Jesus mesmo adverte: “Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Lá está”! (vv. 20, 21). Não se pode, pois, reduzir ou confundir o reino com estruturas sociopolíticas, ainda que comprometidas com o bem; nem com as manifestações sobrenaturais de cunho carismático; e nem mesmo com a Igreja. O reino transcende a tudo isso.

A vinda do reino, com suas manifestações históricas, deve ser desejada e buscada constantemente pelo cristão. É exatamente isso que Jesus sugere, ao ensinar seus discípulos a orar, dizendo: “venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10).

Os verdadeiros discípulos de Cristo são agentes do reino e, como tais, precisam viver e proclamar os valores do reino de Deus no tempo e no lugar em que estão. Deus instrumentaliza indivíduos e a comunidade para a concretização do reino na História.

  1. O aspecto escatológico do Reino

No aspecto histórico, percebe-se o reino “já agora”; no aspecto escatológico, “ainda não”. “O reino de Deus, pois, é futuro, como o é ‘aquele dia’ em que terá lugar o grande juízo de Deus (Lc 10.12; Mt 11.24; 12.36) e a vinda do Filho do Homem. O mesmo está em evidência nas assim chamadas parábolas da ‘parusia’ (Mt 24.43s; Mc 13.33ss). Como ladrão à noite, como senhor voltando de longa viagem (Mt 25.14ss), como noivo chegando à meia-noite (Mt 25.1ss), assim virá o reino. Este, portanto, é um fenômeno escatológico. É o futuro do mundo e a esperança dos que creem. Mas ele virá por sua própria dinâmica, sem interferência de homens, por ser totalmente de Deus” (G. Brakemeier, op. cit., p. 35).

No texto básico, Jesus faz algumas afirmações sobre a consumação do reino:

– V. 24: “porque assim como o relâmpago, fuzilando, brilha de uma à outra extremidade do céu, assim será, no seu dia, o Filho do homem”. Não haverá tempo para nenhuma providência. O reino de Deus vem subitamente. Portanto, é preciso estar sempre preparado;

– Vv. 34-36: Digo-vos que, naquela noite, dois estarão numa cama; um será tomado, e deixado o outro; duas mulheres estarão juntas moendo; uma será tomada, e deixada a outra. [Dois estarão no campo; um será tomado, e o outro, deixado”.] – Esses versículos indicam apenas que uns serão salvos e, outros, se perderão, como foi no dia em que Noé entrou na arca e no dia em que Ló saiu de Sodoma. À luz do ensino geral da Bíblia, esses versículos não dão base para a crença popular de um arrebatamento silencioso da igreja, sem que aconteça simultaneamente o julgamento do mundo (Mt 25.31-46).

“A Parusia e o Juízo marcam a separação entre o tempo presente e o tempo por vir. São como anunciantes do que se denomina o Reino de Deus ou a vida. (…) O Reino de Deus descreve o estado de coisas depois do Juízo, vistas pelo prisma divino. Completa-se a soberania de Deus, aniquilados todos os que se lhe opunham. É o universo purificado de todo o mal. Do ponto de vista das esperanças e aspirações do homem, a existência em condições tais pode, com justiça, ser chamada vida porque é a soma total de tudo o que constitui a vida no seu sentido mais completo – a verdadeira vida” (O Ensino de Jesus, ASTE, 1965, p. 272).

Jesus voltará! O seu reino se consumará! Aleluia!

Rev. Eneziel Peixoto de Andrade
eneziel@hotmail.com

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