Leia Romanos 1.18 a 32

Nesse texto bíblico, o apóstolo Paulo escreve a respeito do fracasso moral da humanidade decaída. As palavras de Paulo, não obstante a época em que foram escritas, podem ser tomadas para retratar com precisão a triste realidade que envolve a humanidade em nossos dias. Aqui, Paulo fala de um mundo extremamente enfermo. O desprezo por Deus e sua Palavra é apontado como fator agravante desse quadro social de decadência e miséria.

Essa condição decaída do ser humano, que é responsável por todo tipo de degeneração, é denominada na teologia cristã, “Depravação Total”.

Esse conceito, presente nas Escrituras, foi defendido por Agostinho na doutrina do pecado original e, posteriormente, sistematizado pelos reformadores, em especial, os teólogos calvinistas.

Segundo o teólogo reformado Herman Bavinck, “assim como o pecado original se estende por toda a humanidade, ele se estende também por toda a pessoa. Ele exerce influência sobre toda a pessoa, sobre a mente e a vontade, o coração e a consciência, a alma e o corpo, sobre todas as capacidades e poderes de uma pessoa. O coração de uma pessoa é mau desde a sua mocidade e uma fonte de todos os tipos de males” (Dogmática Evangélica, vol. 3, Cultura Cristã, p. 123).

O texto bíblico supracitado apresenta a causa, os sintomas e o tratamento para o terrível mal da depravação humana.

Com certeza, a mensagem desse texto é oportuna para cada um de nós, como indivíduos e, coletivamente, para a nossa nação: uma nação enferma, em que os sinais da depravação humana se tornam mais e mais evidentes em todas as áreas.

Vejamos, então, o que a Palavra de Deus nos ensina sobre esse assunto. Focalizemos:

  • O germe da depravação humana

Para entender o que Paulo escreve nesse texto, acerca da depravação humana, é necessário recordar um pouco do ensino bíblico a respeito da queda de Adão e Eva e as consequências desse ato. Segundo a Bíblia, com a queda, toda a descendência de Adão foi afetada. Em Romanos 5.12, ele escreve: Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”.

Todos os homens, em todas as épocas e os lugares, trazem consigo o germe do pecado (isto é, o pecado original decorrente da Queda). É como declarou Davi: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu a minha mãe” (Sl 51.5).

Todos os males descritos por Paulo nessa Carta, e especificamente nos vv. 18 a 32 do cap. 1, que retratam a depravação humana, têm como raiz o germe do pecado instalado na natureza humana.

Nas pessoas alcançadas pela graça e remidas por Cristo, esse germe foi dominado – como diz Paulo: “o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e, sim, da graça” (6.14). Porém, naqueles que resistem à graça de Deus, o poderoso e maldito germe chamado pecado, age livremente produzindo a depravação que se manifesta nas mais diferentes, reprováveis e perniciosas formas, como podemos verificar frequentemente.

  • Os sintomas da depravação humana

O texto apresenta os seguintes sintomas da depravação humana que, certamente, não são os únicos:

  1. Supressão da verdade pela maldade
    No v. 18, Paulo faz referência à “impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça”. Desde a Queda dos nossos primeiros pais, o homem é dominado por essa tendência de substituir a verdade de Deus pelas mentiras de Satanás.
    Sobre esse terrível sintoma da depravação humana, Phillip Schaff escreveu: “Esta passagem subentende, entretanto, que o homem possui os remanescentes da imagem divina em si mesmo, apesar de tudo; e que, embora caído em Adão, pode afundar ainda mais profundamente, obscurecendo e suprimindo os elementos da verdade que restam em sua razão e consciência” (O NT Interpretado, vol. 3, Milenium, p. 577);
  2. Rejeição à Revelação Geral
    Nos vv. 19 e 20, Paulo reafirma um conceito bíblico amplamente considerado no Antigo Testamento, e reiterado no Novo, que é a revelação de Deus por meio das obras por ele criadas. A revelação natural, porém, não substitui a revelação especial, por meio de Cristo e da Palavra; entretanto, torna os homens indesculpáveis ante o juízo de Deus, como declara o v. 20: “Tais homens são por isso indesculpáveis”;
  3. Profanação da honra de Deus
    Um dos principais sinais da depravação humana é a rebelião do homem contra Deus. Nos vv. 21 a 23 e 25, Paulo descreve a loucura dos que ultrajaram a glória de Deus, através da idolatria, “adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador”. Em nossos dias, vemos que muitos desonram a Deus ao tomar o seu nome em vão, praticar a idolatria, blasfemar ou simplesmente ao ignorar a existência, o poder e a santidade de Deus;
  4. Degradação moral e social
    Quando os homens vão descendo na escala da depravação, tornando-se contumazes e deliberadamente insensíveis à revelação divina e à sua graça, atingem um ponto crítico, em que acabam sendo entregues a si mesmos “para praticarem coisas inconvenientes” (v.28). Segundo C. S. Lewis, eles “gozam para sempre da horrível liberdade que sempre pediram; e, portanto, estão escravizados por si mesmos”. Essas “coisas inconvenientes” incluem a idolatria (v. 23), as “paixões infames” (que indicam todo tipo de desvio comportamental – vv. 24 a 27) e uma conduta social desajustada (vv.28-31).
  • O remédio contra a depravação humana

O texto fala sobre o tratamento radical aplicado por Deus contra o mal da depravação humana: “recebem em si mesmos a merecida punição do seu erro” (v.27). É oportuno lembrar, porém, que essa é uma medida extrema, dispensada àqueles que se recusam a valer-se da graça de Deus para que sejam curados, transformados e santificados.

A graça de Deus, aplicada pelo Espírito Santo, é um poderoso remédio que santifica, ou seja, sara ao que está espiritualmente enfermo; purifica ao que está moralmente enlameado; restaura e transforma ao que está psicologicamente deformado. A depravação humana, portanto, tem cura! (I Co 6.9-11)

Foi essa maravilhosa graça que nos alcançou e nos lavou e nos salvou, como escreve Paulo na Carta a Tito (Tt 2.11-14).

Esse é o evangelho da graça que pregamos. Devemos crer que ele é capaz de confrontar e reverter o quadro de depravação que se acha estabelecido na sociedade. Com certeza, o evangelho da graça de Deus é o único remédio, a única esperança para este mundo miserável.

Rev. Eneziel Peixoto de Andrade
eneziel@hotmail.com

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